O anúncio da escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016 trouxe euforia para a cidade e sua população. A organização do evento possibilitará que o Rio receba investimentos e acelere melhorias na cidade que não seriam feitas tão cedo caso não recebesse as Olimpíadas. Mas essa é preocupação que cabe aos poderes executivos das instâncias municipal, estadual e federal. Como estamos aqui para falar de esporte, tratemos do que cabe ao Comitê Olímpico Brasileiro realizar nos próximos sete anos.
Somente agora, com a eleição do Rio, as autoridades esportivas brasileiras prometem levar a sério as mudanças necessárias para melhorar o desempenho do país nos Jogos. A meta estabelecida pelo COB pretende que o Brasil termine a edição de 2016 entre os dez melhores do quadro de medalhas. Tarefa difícil para quem tem um 16º lugar – obtido em Atenas 2004 – como melhor resultado. Nas outras últimas três edições o Brasil obteve o 25º lugar em Atlanta 1996, a 23ª posição em Pequim 2008 e a vergonhosa 52ª colocação em Sidney 2000, quando não conseguiu nenhuma medalha de ouro.
Analisando o espaço amostral a partir de 1996 (que, não por acaso, foi o ano da primeira Olimpíada que acompanhei), podemos encontrar os esportes nos quais o Brasil tem tradição de bons resultados e tem praticamente obrigação de conquistar medalhas – de ouro, se não for pedir muito. Um dos maiores exemplos é o vôlei de praia, que trouxe ouro e prata de Atlanta (Sandra/Jaqueline derrotaram Adriana/Monica na final feminina); prata (Zé Marco/Ricardo e Adriana Behar/Shelda) e bronze (Sandra/Adriana) de Sidney; ouro (Ricardo/Emanuel) e prata (Adriana Behar/Shelda) de Atenas; e prata (Márcio/Fábio Luiz) e bronze (Ricardo/Emanuel) de Pequim. Com toda essa tradição recente de conquistar, o país pode formar, em sete anos, novas duplas capazes de vencer os Jogos de 2016. Atualmente Juliana e Larissa lideram o ranking mundial feminino e são as maiores esperanças de vitórias brasileiras no vôlei de praia, enquanto Renata e Maria Elisa são as vice-líderes.
Outro esporte que vem sempre trazendo medalhas nas últimas edições é o iatismo. Os velejadores Robert Scheidt e Torben Grael estão entre os maiores medalhistas olímpicos brasileiros da história, sempre favoritos nas competições que disputam. Em 1996, ambos conquistaram o ouro: Scheidt na classe laser e Torben na classe star, em dupla com Marcelo Ferreira. Além dos dois, quem também trouxe medalha de Atlanta foi o irmão de Torben, Lars Grael, terceiro lugar na classe Tornado ao lado de Kiko Pelicano. Posteriormente, Lars seria vítima de um acidente de barco que forçaria a amputação de uma de suas pernas, tirando o velejador das competições esportivas. Em 2000, prata para Scheidt e bronze para Torben e Marcelo Ferreira. Em 2004, os três conquistaram o ouro. E em 2008, Robert Scheidt – já disputando contra Torben na classe star, ao lado de Bruno Prada – conquistou a prata, enquanto a outra medalha brasileira na vela, de bronze, veio de Isabel Swan e Fernanda Oliveira, as primeiras mulheres brasileiras medalhistas olímpicas no Iatismo.
Mas não só de Vôlei de Praia e Iatismo vive o esporte olímpico brasileiro. Outras modalidades sempre fortes, como o vôlei de quadra, o futebol e o judô costumam trazer medalhas, mesmo que não sempre de ouro (não é, galera do futebol?). Olhando para o biótipo do povo brasileiro, é inadmissível que o Brasil seja relegado a coadjuvante a maior parte do tempo no mundo esportivo. A grande miscigenação étnica por aqui possibilitaria chegar a status de excelência em diversas outras modalidades, como a natação, o atletismo, a ginástica e as lutas em geral. Para isso, basta vontade política do COB e das confederações esportivas. As poucas experiências do esporte olímpico nacional com técnicos estrangeiros trouxeram bons resultados. O handball, tanto masculino quanto feminino, melhorou consideravelmente após a chegada da comissão técnica espanhola. O basquete masculino também apresentou melhorias após o espanhol Moncho Monsalve assumir o comando. E como esquecer do ucraniano Oleg Ostapenko, que transformou a ginástica artística brasileira em uma das melhores do mundo? E, fica a pergunta, se deu tão certo com esses exemplos, porque não segui-los?
Como exemplo de onde há necessidade disso temos os esportes aquáticos. Seria enorme o benefício ao pólo aquático tupiniquim, por exemplo, se fosse contratado um treinador europeu. Os países do leste europeu dominam o esporte, e um sérvio, croata ou húngaro certamente teria muito a oferecer para o desenvolvimento do pólo brasileiro. Na natação, treinadores americanos seriam muito bem-vindos. E porque não um chinês ou canadense para os saltos ornamentais e um russo para o nado sincronizado? Em outra área, treinadores americanos para as corridas rasas do atletismo teriam muito a oferecer. Na parte de “field” (em inglês, atletismo chama-se track and field, onde track é a parte das corridas e field compreende os saltos e arremessos), os europeus são os melhores, e um técnico de lá seria bastante produtivo.
Falta ao Brasil, acima de tudo, vontade. As confederações são dominadas por cartolas que se reelegem quantas vezes querem e não tem o menor interesse no desenvolvimento de seus esportes. Agora, ao que parece, temos motivo para mudar essa estrutura defasada e tornar o país, quem sabe?, uma potência olímpica do nível de Cuba, Rússia, China e EUA. Atualmente isso parece sonho porque o esporte não é levado a sério no Brasil. Com a mudança da mentalidade nos treinamentos esportivos – com a chegada de treinadores estrangeiros, a princípio, que possam treinar os jogadores a curto prazo e os nossos próprios treinadores a longo prazo – e a noção de que é fundamental o incentivo à prática esportiva nas escolas e faculdades, é possível melhorar substancialmente o esporte brasileiro. Não ainda para 2016, quem sabe para 2028 ou 2032. E se o país perder a vergonha de copiar os modelos que são bons, bem feitos e dão resultados, quem sabe possamos chegar ao patamar dos cinco melhores do quadro de medalhas. Não ainda para 2016. Mas quem sabe para 2020?
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
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